NOTA PARA INICIAR A LEITURA DESTE BLOG: Ao ler este blog, você encontrará algumas palavras com a letra "x" no lugar dos artigos masculino e feminino "o" e "a". Essa substituição é feita na literatura libertária para subverter a linguagem machista, na qual o sexo masculino é priorizado, e para contrapor o binarismo de gênero, ideia que teoriza existir apenas os gêneros masculino e feminino, não levando em consideração transgêneros e afins. Portanto, a letra "x" é utilizada no lugar dos artigos em palavras em que o sexo não é determinado. Ex.: ao invés de dizer "outros", utiliza-se "outrxs", pois estamos falando de todo e qualquer tipo de gênero.

OUTRAS OBSERVAÇÕES IMPORTANTES: Este e-zine foi escrito em 2010, baseando-se na minha vivência pessoal dentro do movimento punk até o ano em que publiquei os textos, considerando a cena da cidade de São Paulo entre os anos de 2002 e 2010. De lá para cá, alguns pontos de vista foram amadurecendo, o senso crítico foi aumentando e, com isso, alguns dos textos podem não estar atualizados e de acordo com as novas experiências adquiridas ao longo de quase 6 anos passados após a edição deste e-zine. Coloco-me à disposição para trocar informações e debater ideias, com o intuito de manter o punk sempre vivo e ativo: mao_veg@hotmail.com . ÊRA PUNK! (nota adicionada em dezembro de 2015)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

CONTEÚDO DESSE BLOG:

Introdução

Capítulo I – O punk e o anarquismo

Capítulo II- Choque cultural e o padrão oculto

Capítulo III – Contracultura e ação

Capítulo IV – Manifestações e organização prévia

Capítulo V – Estudos e propostas

Capítulo VI – Sobre centralização e sectarismo

Capítulo VII – O punk e suas visões distorcidas

Capítulo VIII – Sobre drogas e consciência

Capítulo IX – A ruptura com o preconceito

Capítulo X – As mulheres punks e as questões feministas

Capítulo XI – A sociedade leiga X imediatismo na militância

Capítulo XII – Libertação humana e animal

Capítulo XIII – A busca por cultura e o mundo diverso

Capítulo XIV – O ideal libertário nos dias atuais

Capítulo XV – A consciência além do punk

INTRODUÇÃO

Em diversos cantos, de diversas bocas, ouvem-se as tão famosas frases “o punk está morto”, “o punk é uma moda”, “o punk virou algo comercial”, entre tantas outras que poderiam soar desembasadas, não fossem alguns conflitos internos dentro do movimento punk no contexto atual.

Sabe-se que o punk é contestação, é ação, é consciência, é respeito mútuo, é a diversidade de culturas... Mas, na sociedade contemporânea, o que o punk contesta? Quais são suas ações? O que o punk tem por consciência em seu plano de ação? Há, de fato, o respeito mútuo? E quanto a diversidade de culturas, em quais delas o punk se identifica ou se espelha?

Devemos nos atentar a uma série de questões que ultrapassam a visão de muitos militantes, já que lidamos com uma sociedade não habituada a ideias libertárias, onde pessoas não conseguem enxergar o quão violados estão seus direitos.
É necessário um plano de ação, uma consciência acerca de questões delicadas, é necessário rever e repensar muitas atitudes, pois a evolução pessoal é tão importante quanto a revolução social.

Neste documento, pretendo abordar algumas dessas questões e propor novas formas de lidar com a sociedade e com a militância enquanto punk.
Esse documento sugere a reflexão sobre o que cada punk, em seu íntimo, traz consigo para contribuir com a luta pelas liberdades.

Espero, dessa forma, contribuir e ampliar o diálogo entre xs punks, aumentando a interação entre todxs xs militantes.

ÊRA PUNK! Paz e Consciência!

Mao Punk

CAPÍTULO I – O PUNK E O ANARQUISMO


O punk como movimento surgiu em meados dos anos de 1970, com claro contexto de oposição aos padrões vigentes, que aprisionam as pessoas em um sistema de escravidão estética, moral, social, política e comportamental. O punk é justamente a ruptura com essa escravidão. É a liberdade de cada indivíduo em ser o que quiser, livres das amarras do sistema capitalista. Tendo em vista estes intuitos, percebe-se claramente a tendência anarquista no comportamento punk.

Porém, é necessário compreender que o punk e o anarquismo são coisas distintas, que podem se encontrar (e frequentemente se encontram) como complemento de cultura e ação.

O anarquismo como ideia e postura política teve início quando o francês Pierre-Joseph Proudhon se auto-proclamou anarquista. Ele foi a primeira pessoa a defender o anarquismo como postura política e deu força às ideias anarquistas com seus escritos, dentre os quais “Que é Propriedade”, publicado em 1840. Nessa publicação, ele atacava a propriedade privada como sendo a base das desigualdades sociais e defendia novos meios de produção sem exploração, tema que anos mais tarde foi abordado e aprimorado por outrxs anarquistas como Bakunin e Malatesta, entre tantxs outrxs.

Sendo o anarquismo uma filosofia e movimento de libertação social, o punk adotou a postura anárquica, firmando-se como libertário por essência.

Pode-se dizer que o punk é a contestação cultural contra os padrões vigentes, por meio de um visual que confronta o estabelecido, por meio de informativos independentes, livres de manipulação midiática, por meio de música anticomercial e por um pensamento de liberdade. Já o anarquismo é o lado da ação, do protesto, das manifestações políticas. Sendo assim, torna-se infundado separar o punk do anarquismo, quando o punk propõe mudanças sociais e o anarquismo é justamente a ferramenta para a libertação social contra o atual sistema vigente.

CAPÍTULO II – CHOQUE VISUAL E O PADRÃO OCULTO

Uma das características do punk – talvez a mais evidente – é o visual que nos remete a um choque estético. Roupas velhas simbolizando a luta anticonsumista, moicanos simbolizando a guerra contra o sistema capitalista, coturnos mostrando uma postura antimilitar (pois todxs são capazes de se “policiar” sozinhzs e em cooperação, sem a necessidade de uma entidade estatal para isso), os cadarços coloridos sugerindo diversas ideias que o punk abarca, patches costurados em roupas propagando ideias e bandas da contracultura (cultura alternativa), entre outras peculiaridades.

Sem dúvida, o punk quebra com os padrões que nos são impostos pela televisão, pelas revistas e por vários canais que contribuem com o massacre capitalista. Mas, não teria o punk se uniformizado nessas características tão peculiares? Na minha visão, não!

Enquanto o visual punk chocar, então será uma prova de que a sociedade ainda carrega em si preconceitos e moralismos moldados e impostos. Torna-se necessário dizer que nem todx punk usa visual e muitxs buscam formas alternativas de se vestir, para que o punk continue sua autonomia em ser o que quiser, sempre respeitando as diversidades.

Infelizmente, o que acontece tantas e tantas vezes, é o desrespeito de punks para com outrxs punks e de punks para com outras pessoas.

É comum ver brigas por conta de “tal punk usar tal acessório”, “tal punk usar tal cor” entre outras idiotices. O que importa, afinal, não é a união e a quebra de padrões? Então para que essas brigas que não levam a nada e só criam separatismo dentro do movimento?

E o pior de tudo são preconceitos com outras formas de se vestir. Pessoas que se dizem punks, antipadrão, mas que ao ver algum estilo alternativo ou emo, por exemplo, são xs primeirxs a criticar e tirar a liberdade dx próximx. Onde essxs “punks” querem chegar com tanta hipocrisia e mediocridade? Se somos contra padrões e a favor das liberdades, por favor, não tirem a liberdade dxs outrxs e não tentem criar um novo padrão de como se vestir ou não se vestir. Nossxs inimigxs são as grandes empresas exploradoras, o governo, o Estado; não as pessoas que fazem parte da massa. No mais, devemos conscientizar a população, nunca impor ou apontar o dedo na cara de alguém. Muitas vezes, aliás, na maioria das vezes, as pessoas nem fazem ideia de que estão colaborando com o sistema tal como ele é. Conscientização, sim! Imposição nunca!

Façamos o choque cultural e respeitemos tantos outros visuais, afinal, a proposta do punk é justamente a liberdade e o respeito às diferenças. Se nós formos sensatxs o bastante para entender as diferenças e conscientizar a respeito dos costumes atuais que dilaceram o indivíduo, então as pessoas respeitarão mais o punk, tal como queremos ser respeitados.

CAPÍTULO III – CONTRACULTURA E AÇÃO

O punk é contracultural. Isso não significa ser anticultura, é justamente o contrário! Contracultura é uma cultura alternativa, livre das imposições, uma cultura autônoma. Sendo assim, o punk defende a diversidade cultural e o livre acesso a informações, livre de monopólios e manipulações.

Uma das manifestações contraculturais do punk são as “gigs” – eventos onde xs punks tocam suas músicas anticomerciais e trocam informações.
As gigs são importantes eventos para xs punks, pois é onde podem se confraternizar, se divertir, obter novas ideias, trocar materiais e manter a cena contracultural viva.

Mas o que vemos é a falta de interesse de muitxs punks em acompanhar todos os atrativos que as gigs muitas vezes oferecem, como por exemplo oficinas, palestras, debates, etc. Muitxs esperam apenas a hora do show, da música ao vivo, esquecendo que não é só de música que uma gig é feita. É importante prestigiar tudo o que a gig oferece para que se aprenda mais a respeito do próprio movimento, para que haja a manutenção de informações, para que cresçamos como militantes políticxs libertárixs.

É importante não se fechar apenas em gigs, mas também buscar informações em diversas áreas, em diversas culturas diferentes, para que haja um diálogo entre diferentes ideias, ajudando a interação entre a população.
Somente interagindo com outras artes e outros eventos é que construiremos uma sociedade de apoio mútuo, interação e respeito.

CAPÍTULO IV – MANIFESTAÇÕES E ORGANIZAÇÃO PRÉVIA


Xs punks não vivem apenas de gigs, pelo menos ainda existem focos de militantes que se importam com a propagação da ideia e com a ação direta em seus diversos aspectos.

Sair nas ruas em passeatas e manifestações é outra característica dxs punks. Infelizmente, parece que não são todxs xs punks interessadxs em construir algo através de protestos de rua e, em certos casos, muitxs dxs que comparecem a esses atos fazem questão de não respeitar o consenso, partindo para atos desnecessários e desconexos com a manifestação em si.

Lamentavelmente, isso se deve ao fato de que xs próprixs punks não estão se organizando como poderiam.

O movimento punk se engaja em lutas sociais de cunho anarquista, como por exemplo nas jornadas em memória do dia 1º de maio de 1886, quando houve uma greve geral em Chicago por melhorias trabalhistas. Outro exemplo é a luta operária das mulheres do dia 8 de março de 1857, quando estas reivindicavam seus direitos nas fábricas e foram brutalmente assassinadas, trancadas dentro da fábrica e queimadas vivas. Podemos ainda citar o dia 7 de setembro, quando o Bra$il comemora a farsa da independência e xs manifestantes saem às ruas para alertar que ainda vivemos sobre influências tanto externas quanto internas, numa dependência que gera desigualdade social e guerras entre nações.

Tudo isso é de extrema importância para a emancipação social e para a construção de um mundo mais ameno e justo. Mas falta organização entre xs punks e anarquistas para que se possa realmente construir coisas produtivas.

Citando o movimento atual da cidade de São Paulo, geralmente essas passeatas – mais especificamente nessas datas citadas acima – acontecem no centro da cidade. Muitas vezes, a concentração de manifestantes acontece espontaneamente, sem uma organização prévia de como seguir com a manifestação. Sabendo-se que nessas datas sempre há concentração de punks e anarquistas pelo centro, tornou-se praticamente um encontro anual/periódico de militantes, sem propostas de novas ideias e de novas ações. Alguns saem de casa nessas datas simplesmente porque sabem que irão encontrar outrxs punks/anarquistas pelo centro. Chegam ao local de concentração sem ao menos saber o que será feito durante a passeata.

Faltando embasamento e diálogo para realizar as passeatas, é comum que as ideias de cada militante entrem em divergências, o que significa uma manifestação disforme, já que durante a ação torna-se quase impossível entrar em um consenso entre todxs xs participantes.

É necessário um amplo diálogo entre xs militantes, uma organização antes das passeatas, para que se decida em consenso a rota, as formas de propagação, os materiais, etc. Dessa forma, as chances das manifestações saírem do controle dxs militantes diminuem bastante.

Outra coisa importante a se observar é o tipo de ação direta que será empregada nesses atos. Nem sempre a depredação de estabelecimentos privados se torna válida. É importante manter um foco! Se estamos manifestando pela conscientização do voto nulo, por exemplo, não há um motivo que legitime o ataque destrutivo ao patrimônio estatal (a não ser que haja realmente um contexto para essa ação e esse contexto esteja dentro do consenso entre xs manifestantes). Que fique claro, o que estou dizendo não é que não devemos atacar o Estado. Ele deve sim ser atacado, das formas que forem necessárias. No entanto, como militantes, devemos ter visão de quando é o momento para se agir radicalmente e quando devemos ter uma postura mais cautelosa, afinal, se queremos nos unir ao povo e apagar a imagem deturpada que a mídia farsante expõe sobre o punk, é necessário que tomemos cuidado com nossos atos, para que possamos atrair mais pessoas em nossa luta. Assim poderemos, juntxs, acabar com as repressões sociais e caminharmos todxs por um mesmo fim: a extinção da exploração e das desigualdades.

Como nós, punks, representamos a luta do povo de todos os cantos, de todos os lugares, é importante não realizar as passeatas e ações somente nos centros das cidades, como acontece geralmente em São Paulo. É necessário que aconteça, simultaneamente, passeatas em todos os cantos da cidade, no centro, no subúrbio, nas periferias, principalmente em zonas carentes de informação. Não só passeatas, mas panfletagens, colagens de lambe-lambes (cartazes), distribuição de fanzines (informativos independentes), debates, eventos direcionados à comunidade, etc. Se a luta ficar apenas concentrada no centro ou apenas em um único ponto da cidade, então nós como militantes não estaremos fazendo nosso papel, que é passar informações e conscientização para todos os cantos e para quantas pessoas for possível.

Outra coisa importante para se dizer a respeito das ações, é que elas não podem acontecer apenas em datas óbvias. A luta é diária e a organização também deve ser! É necessário ação todos os dias, propor novas manifestações e eventos sempre que possível, difundindo assim o ideal libertário.

Ampliemos nosso campo de ação, organizemos com antecedência nossas passeatas, respeitemos o consenso e parceirxs de luta, sejamos cautelosxs nas manifestações e assim iremos conquistar grandes vitórias.

CAPÍTULO V – ESTUDOS E PROPOSTAS


Tendo em vista que o punk se encontra em ideais anárquicos, é necessário estudo a respeito da luta anarquista na história. Muitas pessoas se dizem punks e anarquistas sem ao menos entender questões importantes como a descentralização das formas de produção, a diferença entre comunismo-libertário e comunismo, a relação entre trabalho e emancipação social, a importância da luta das mulheres para a sociedade, a questão de condição sexual, etc.

O anarquismo vai muito além de ser contra o governo, o Estado ou qualquer outra forma de opressão. O anarquismo, além da luta libertária e antifascista, é estudo, ação, é respeito, é a busca de informações, é pensar por si, é ter argumentos e soluções para sugerir, é repensar atitudes, é ter convicção em uma ideia, é a sensibilidade e a solidariedade, é a curiosidade pelo desconhecido, é ir atrás de evoluções. Ser anarquista é saber olhar além!

Umx idealista que não busca estudar a luta libertária não poderá se desenvolver enquanto militante.

Só através de estudo é que podemos conhecer as raízes das desigualdades e conhecer novas formas de lutas.
Quando digo estudo, não falo apenas em livros. É importante buscar informações em diversos lugares. Tanto em livros como em fanzines, documentários, leituras, artes, etc.

Quanto mais interesse umx militante tiver, mais poderá contribuir com a luta social e poderá sugerir novas propostas de ação.
A dica, então, é: leia, busque, se informe, adquira mais cultura!

CAPÍTULO VI – SOBRE CENTRALIZAÇÃO E SECTARISMO

Eis um ponto muito discutido e ainda assim muito delicado no movimento punk.
O punk é uma alternativa, é uma expressão contra os padrões impostos (sim, é sempre necessário lembrar isso, já que algumas pessoas ainda não entenderam o real intuito do punk) e, sendo uma alternativa, obviamente não é a única forma de expressão aceitável e cabível.

Alguxxs “punks” pensam que a rebeldia direcionada e a contraposição do sistema é exclusividade do movimento punk. Algo muito estúpido de se pensar e uma forma muito ignorante de agir, já que temos conhecimentos de diversos movimentos e culturas que confrontam as opressões, como por exemplo o hip-hop, coletivos artísticos, pessoas autônomas idealistas, etc.

Falando mais da cena punk, as divergências entre pensamentos a respeito da forma de agir, de campos de atuação, entre outras diferenças, acabaram criando segmentos dentro do próprio movimento punk. Isso contribuiu, em certo aspecto, para a dissolução da união entre os militantes.

Se o punk, em sua essência, é libertário, antifascista, contracultural e solidário, temos que saber aproveitar as diferenças individuais de cada punk para que possamos agir cada um em seu campo de atuação, aumentando efetivamente a presença de um movimento libertário em tantos e tantos campos sociais.

Criticar umx punk porque estx não é violentx, ou porque é mais ligadx à arte, ou então porque escuta outros tipos de som, ou por qualquer outro motivo parecido é a mesma coisa que virar a cara para o povo. Criticar tais atitudes é impedir que o movimento libertário se expanda para outras culturas próximas de nós. Criticar tais atitudes é virar a cara para um mundo multicultural e solidário. O punk, afinal, não preza por um mundo onde caibam diversos mundos? Então foquemos nisso!

Então não devemos centralizar a contracultura. Por centralizar, devemos entender “monopolizar as formas de ação”, afinal, não é só de uma ação que é feita a luta do punk! O punk está presente tanto na contracultura quanto em nós como pessoas, cada umx com suas diferenças, cada umx com seus gostos e lazeres, com seus ativismos e seus “rolês” (que podem ser gigs, bares, museus, parques ou qualquer coisa que se possa fazer).

O conhecimento de que existem outras culturas e outras formas de pensar ajudam não só o movimento punk e libertário, mas também a sociedade como um todo.

E tão importante quanto a percepção de tais diferenças na sociedade, é a ciência de que dentro do movimento punk existe muito preconceito entre xs próprixs punks.
Todxs xs punks – punks de verdade, em essência, ideia, mente e coração – são antifascistas, contra todo tipo de preconceito, seja racial, de gênero, sexual, etc. Então porque criticar companheirxs da própria luta?

Quando o punk abarcou em seu ideal as propostas anarquistas, a intenção era produzir coisas em prol de todxs. Mas parece que muitxs punks não entenderam isso e fazem do anarquismo uma guerra ideológica contra libertárixs com pensamentos diferentes!

Punks independentes, punks do subúrbio, anarcopunks, punks straight-edges libertárixs, todxs são punks! Todxs são antifascistas! Todxs estão na mesma luta! Não há nada mais ridículo do que tretas entre essxs punks, sendo que todxs fazem parte do mesmo movimento, da mesma ideia, da mesma vontade de melhorar a sociedade! Novamente torno a falar: existem diferenças apenas no modo de agir, mas a intenção é a mesma! Então para que censurar (censura é algo um tanto repressor para ser visto dentro do movimento punk, vocês não acham?) x companheirx que está travando sua batalha em um campo distinto? Pense bem: se você age num campo e outrx punk age em outro campo, isso significa que o movimento punk está marcando presença em vários campos diferentes! Então, vamos parar com essa ideia de que “tal punk” não presta, que “punk fulanx” não age onde deveria, etc.

Se cada punk estiver produzindo, seguindo a luta libertária, sem caminhar rumo ao fascismo, então devemos todxs nos solidarizar!

E mais uma coisa: “punks” que andam com carecas e skinheads fascistas, “punks” que se dizem apolíticxs e só pensam em rolê, “punks” que acham que ser punk é sair por aí e brigar com qualquer umx porque brigar é uma “puta atitude”, “punks” que acham que basta vestir uma roupa chocante e conhecer o maior número de bandas, essxs “punks” não passam de fascistas idiotas, ignorantes que nunca leram ou viveram a essência do punk.

Xs punks sempre estarão lutando contra as injustiças. CONTRA AS INJUSTIÇAS, não contra xs próprixs militantes.

CAPÍTULO VII – O PUNK E SUAS VISÕES DISTORCIDAS

Falei um pouco sobre a importância em não centralizar a luta libertária e sobre o perigo de se tornar sectárix perante as diferenças individuais. Devemos também nos atentar sobre pessoas que ingressam dentro do movimento punk sem saber de fato o que é nossa ideologia e nossa cultura.

Nós punks temos uma inimiga fundamental que distorce o verdadeiro ideal que carregamos e atrai algumas pessoas de má fé para junto de nossa contracultura. Essa inimiga é a mídia corporativa. Através de falsas informações, matérias sensacionalistas e infundadas, distorção dos fatos e outras artimanhas com apoio governamental e estatal, dignas de inquisidores fascistas que perseguem o povo que se insurge perante as injustiças, a mídia acaba passando a visão de que xs punks são baderneirxs, desorganizadxs, rebelde sem causa, bandidxs (quem se rebela contra a repressão é bandidx. Agora, se você é político e desvia verbas públicas, então você é digno de prestígio perante o sistema) entre outros adjetivos ignorantes.

Infelizmente, muitxs jovens acabam acatando o que a mídia empurra. E o pior: se interessam por essa visão distorcida do punk! E saem por aí com roupas extravagantes, xingando a tudo e a todos, brigando sem quaisquer motivos. E acham que isso é ser punk.

E a distorção não para por aí. Existem pessoas que tem conhecimento sobre o punk, mas na hora de agir, agem completamente diferente do que pregam, do que o punk propõe. É a velha história da hipocrisia.

Ser punk não é ser sujx e malvadx, colar na frente de galerias e intimar pessoas que passam, beber até cair porque isso é “subversivo”, bater nos outros sem razão... Não! Ser punk não é isso!

E axs que pensam que para ser punk é preciso ser assim, esqueçam! Para ser punk não é necessário ser malvadx, mal-encaradx, grosseirx, sujx. Ser punk é ser você mesmx. Pode ser delicadx, sensível, cheirosx, gordx, magrx, altx, baixx, falar formal ou coloquialmente... O que vai te fazer punk é a atitude e a vontade que você tem de mudar a sociedade!

Existe tanto punks mais agressivxs (agressivxs na forma de se portar, de falar) quanto punks mais delicadxs.

Punks nunca usam da violência sem que haja uma justificativa para tal ato. Aliás, é importante registrar que a maioria dxs punks são pacíficxs e não utilizam a violência. Claro que em todos os meios, seja no meio punk ou não, existem pessoas violentas. Mas isso nunca foi característica do ideal punk em si, mas sim da individualidade do militante, que pode ou não recorrer à violência de alguma maneira. Nesse caso, vale ressaltar que a violência é sempre empregada contra o fascismo, nunca contra o povo oprimido.

Àquelxs que estão no punk por que acham que é uma postura de gente brava que impõe medo, por favor, não gastem seu tempo! O punk é união e a solidariedade, portanto, uma demonstração de cordialidade para com x próximx.

CAPÍTULO VIII – SOBRE DROGAS E CONSCIÊNCIA


“Punks... São um bando de drogadxs!”. Comum ouvir essa frase, não é mesmo? Mal sabem as pessoas que nem todxs xs punks usam drogas, aliás, é algo muito ilusório relacionar o movimento punk com as drogas. O que quero abordar aqui é a relação entre a individualidade dx punk que faz uso dessas substâncias e a militância quanto punk ativista.

Sim. Existem punks que usam drogas. Mas isso está longe de ser regra (com o perdão da palavra, afinal, punks e regras não se conciliam). Existem muitos punks que não usam drogas e podemos citar os straight-edges que ainda carregam em si a ideia inicial dessa postura (punks e pessoas ligadas a contracultura que não usam nenhum tipo de droga, tanto lícitas quanto ilícitas).

Quanto aos que usam drogas, certamente é um direito que cada umx tem de usar sua mente e seu corpo como quiser. No entanto, alguxxs punks que se drogam não se atentam para certos fatos que implicam na organização e propagação da ideia libertária. O exemplo mais preciso é o consumo de bebidas alcoólicas e outros entorpecentes momentos antes e durante as manifestações. Em capítulo anterior, já abordei sobre a necessidade de organizar com antecedência as manifestações, evitando dispersões e divergências inesperadas. Tão importante quanto essa organização prévia é a atenção para que não se consuma drogas no momento de protestar.

Sabemos que entorpecentes mexem com o psicológico, podendo relaxar ou exaltar aquele que os utiliza. É importante, durante uma manifestação, manter a consciência sob controle, direcionando a atenção nos atos e no protesto. Portanto, uma maneira de evitar imprevistos é não utilizar drogas antes ou durante as manifestações. Para quem usa entorpecentes, fica a sugestão de usar somente após os atos, para que ninguém saia prejudicado e para que a manifestação seja mais proveitosa.
Depois das ações, cada umx fica sujeitx a aproveitar o dia como bem entender, sempre respeitando x próximx.

Além das manifestações de ruas, passeatas e protestos, vale a pena falar a respeito dos squats. Squat é a invasão e ocupação de uma propriedade privada inutilizada com o intuito de se criar centros comunitários e culturais para a sociedade.
Os squats são de extrema importância para o movimento libertário, já que é um ataque direto à propriedade privada, transformando um imóvel particular abandonado em um centro cultural coletivizado para o povo. É como pegar de volta o que nos pertence: o direito ao acesso à cultura, a partilha de conhecimentos e meios de produção, a quebra da lógica capital, a derrubada de um símbolo de desigualdade social.
Por se tratar de um ataque ao maior símbolo capitalista (a propriedade privada), é necessário ter cautela ao administrar um squat, principalmente quando ainda em processo de ocupação.

Nos squats, normalmente se encontram pessoas que passam a residir no local após a ocupação, já que é necessário que alguém tome conta do local quando este não estiver em atividades. Pode ser feita uma rotatividade de participantes, onde cada noite alguém toma conta do squat. Enfim, as formas de se organizar a estrutura de um squat podem ser várias. Mas é necessário que se tenha seriedade e consciência.
Quero propor reflexões a respeito do consumo de drogas dentro dos squats. Como cada caso é um caso, deixarei questões em aberto, levando em consideração que ainda estamos dentro de um sistema que pune judicialmente o porte de drogas:

- Se o squat tem como principal foco um centro cultural comunitário, é cabível assumir o risco de guardar ou utilizar drogas no local ?
- No squat, é comum a visita de crianças e menores de idade? Se sim, vale a pena correr o risco de perder um espaço social por conta de entorpecentes encontrados?
- Existe algum outro lugar onde x squatter possa usar suas drogas sem ser dentro da ocupação? Se sim, por que não usar fora do squat?

São algumas questões em aberto, para que se discuta uma forma de minimizar as consequências de uma desocupação e de um despejo, além de evitar desgastes desnecessários.

Como podemos ver, a questão entre militantes e drogas é bem delicada e precisa de atenção e consciência de todxs xs que estão ligadxs à causa libertária.

CAPÍTULO IX – A RUPTURA COM O PRECONCEITO


Solidariedade, união, justiça, antifascismo, consciência, respeito, responsabilidade, autonomia... São algumas palavras frequentemente pronunciadas por punks. Não por menos, já que o punk carrega em si todas essas expressões e sentimentos. Pelo menos na teoria. Na prática, as coisas nem sempre acontecem como deveriam...

O início do movimento punk no Bra$il, por exemplo, foi conturbado e passou por momentos de conflito interno até se estabilizar. Exemplo disso eram as brigas entre punks da cidade e punks do subúrbio. Com o tempo, o punk foi tomando consciência de que esse separatismo e esse regionalismo afastava-o do objetivo libertário. Era necessário romper com essas barreiras, bradar a união entre punks de todas as regiões, construir um movimento mais sólido e efetivo. E então, esses desentendimentos foram diminuindo.

Infelizmente, hoje em dia ainda existem casos de separatismo dentro do movimento punk, como se umx punk de “tal região” fosse mais punk do que x sujeitx de “região tal”. Que diabos é isso de “mais punk”?

Estamos todxs na mesma cena! Ninguém aqui está concorrendo ao prêmio de “Mr. Punk” ou “Miss Punk”. Ser punk não é status, motivo de orgulho ou algo do tipo. Ser punk é motivo para protestar e conscientizar!

O punk é cultura de rua porque é nas ruas que podemos passar informações ao próximo. É indo às ruas que criamos diálogos com a população. É ilusão achar que punks devem ser necessariamente de áreas periféricas, de regiões centrais ou de alguma região específica. O punk não depende de regiões, depende da consciência em querer a igualdade entre todos os cidadãos! Então fica claro que regionalismo é uma forma estúpida de distorcer a luta libertária. O movimento libertário abomina o regionalismo e as fronteiras que só servem para separar o povo do povo e incentivar as guerras estatais.

Então, o ideal é viver a união e o respeito que tanto defendemos. Mas não se esqueçam que esse respeito não deve ser só entre xs punks. Respeito ao próximo é primordial em qualquer situação, pois é com respeito que construiremos uma sociedade mais justa para todxs.

Isso nos remete a um assunto de suma importância: a questão da homossexualidade. Não sei o que acontece com alguxxs “punks” de hoje em dia que se opõem de forma estúpida axs homossexuais. Essa homofobia existente em alguxxs “punks” acaba passando uma ideia totalmente errada para a sociedade.

Ei, homofóbicx! Você se acha punk? Sinto lhe informar, mas você não passa de umx fascista repressorx. Pode dar a mão aos carecas e explodir junto com eles!
Se o punk é a favor do respeito, do amor entre as pessoas, da união, se o punk é contra dogmas estabelecidos por uma sociedade repressora, então dentro do punk não cabe a homofobia. Se você é homofóbicx, nem pense em ingressar ao movimento, ok? Ok!

Aliás, vale lembrar que dentro do movimento punk existe, obviamente, homossexuais. O punk é aberto para todxs que se opõem ao sistema e padrão vigentes. Isso inclui gays, heterossexuais, negrxs, brancxs, etc.

Por isso mesmo devemos descartar qualquer forma de preconceito, pois o preconceito é um tiro no movimento punk. O preconceito é inimigo do punk!

CAPÍTULO X – AS MULHERES PUNKS E AS QUESTÕES FEMINISTAS


O mundo segue em seu sistema hierárquico, desigual e explorador. Podemos apontar diversos males que esse sistema nos traz: monopólio dos meios de produção, desigualdade econômica, devastação do meio ambiente, fome, preconceitos, repressão estatal, escândalos políticos, alienação da massa, guerras – civis, territoriais, religiosas e por lucros –, escravidão, trabalho infantil, menores abandonadxs... se formos falar de todos os problemas, poderemos escrever um livro à parte. Dentre tantos problemas, irei falar sobre o descaso para com as mulheres.

É triste saber que apesar das mulheres sofrerem grande violência e abuso da sociedade, ainda assim a causa da libertação feminina não é discutida como deveria dentro do movimento libertário.

Vale lembrar que o feminismo não é separatismo. Feminismo é a luta da mulher pela igualdade social, onde mulheres e homens serão tratadxs de forma igualitária, sem privilégios que promovam a desigualdade entre os gêneros.

Entretanto, a luta feminista no contexto libertário ganha uma característica que traz mais embasamento ao feminismo: o feminismo libertário defende que não basta as mulheres alcançarem os mesmos direitos que os homens dentro desse sistema, pois os direitos conquistados dentro da sociedade capitalista acaba sendo privilégio de algumas e assim continuará a existir exploração de umxs por outrxs, o que inclui a exploração de mulheres e homens. O feminismo libertário propõe o fim do Estado e a solidariedade entre o povo, pois assim se findará de fato as desigualdades entre homens e mulheres, já que todxs viverão em harmonia em prol de uma sociedade mais amena.

Enquanto a mulher for explorada, agredida, violentada, ignorada e subestimada, então será evidente o quão fadadxs estamos a seguir hierarquias e preconceitos. Reprimir e destratar a mulher é promover o machismo e a hierarquia patriarcal.
Devemos renegar o patriarcado! Ele nos diz que o homem é a base da sociedade, que a mulher tem deveres de submissão para com o homem, que o homem deve trabalhar enquanto a mulher deve servir à casa. É exatamente o que o governo faz com o povo: submete a massa a seus caprichos e exploração!

Dentro do movimento punk vemos o descaso que as mulheres vêm sofrendo. Tratadas apenas como “garotas do rolê”, não são vistas como militantes libertárias por uma parcela do movimento. A luta da mulher punk é importantíssima, já que a sociedade só alcançará a emancipação social caminhando lado a lado, mulheres e homens, juntxs pelo mesmo fim!

A mulher punk representa de forma extraordinária a força contra os padrões impostos, contra a beleza padronizada pela moda, contra o fascismo – já que luta firmemente contra todas as repressões, inclusive o machismo, algo que realmente precisa ser extinto. A mulher punk representa que é possível construir, através do feminismo libertário, uma luta onde mulheres e homens produzam bons frutos pela emancipação social.

Solidariedade ao feminismo libertário! Solidariedade às mulheres!

CAPÍTULO XI – A SOCIEDADE LEIGA X IMEDIATISMO NA MILITÂNCIA


O principal campo de ação de umx libertárix é a conscientização e a propagação do ideal. Quando falamos de conscientização, estamos falando sobre passar informações para pessoas que ainda não as têm.

A sociedade, em geral, nunca se questionou sobre muitas questões que o punk geralmente questiona. E por isso, a propagação para essas pessoas deve ser de forma delicada e cautelosa.

A princípio, a sociedade se assusta com o ideal libertário, pois para muitos indivíduos, a noção de viver sem governo e sem Estado soa absurda. Mas sabemos que viver sem tais males é uma ideia aplicável, quando podemos formar associações e federações que conseguirão atender de forma mais satisfatória toda a população (para mais informações a respeito de organizações horizontais, busque livros de autores anarquistas). O problema é que as pessoas, em sua maioria, nunca leram a respeito de federações e organizações autônomas (aliás, se você é punk e não sabe o que é federalismo libertário, fica a dica de procurar a respeito. Essas informações lhe darão muito mais base e argumentos para prosseguir a luta. E se você não é punk e desconhece o federalismo, vale a pena ler sobre o tema também). Como o povo desconhece a organização libertária, não podemos passar nossas ideias de forma subjetiva. Qualquer palavra mal colocada pode voltar a população contra xs libertárixs, por simples mal entendido.

Não adianta querer ser imediatista, apontar o dedo na cara, falar dos erros dxs outrxs. Pare para pensar: em 90% dos casos, as pessoas não tem noção de que estão cometendo erros que favorecem o Estado. Aliás, as pessoas nem sequer sabem que o Estado é um erro!

E atenção para o que vem a seguir: o punk nunca foi, não é, nunca será e nem deve ter a pretensão de ser o dono da verdade. Acha que só porque você é punk tem mais moral que outrx cidadãx? Deixa de ser egocêntricx! Ninguém é obrigadx a aceitar suas opiniões. Justamente por isso não devemos nunca apontar o dedo e “censurar” os erros alheios. O que devemos fazer é sugerir novas formas de ação, sugerir a reflexão de seus atos. SUGERIR!

Do que adianta falar mal de quem é consumista, de quem é egoísta, de quem concorda com a política atual se ao falarmos mal perdemos a chance de SUGERIR novas ações a essas pessoas?

Com o imediatismo acabamos repelindo a sociedade da luta libertária. Quem se sentiria à vontade de participar de ações onde xs militantes são cheixs de si, falam mal dxs outrxs, criticam, não dão apoio, arrumam confusão e não pensam pelo lado dxs outrxs? Eu, como cidadão comum, certamente não me sentiria à vontade, como não me sinto à vontade com o Estado, que funciona através dessas "lógicas" e incentiva tais posturas.

Devemos saber entender o ponto de vista dxs outrxs. Isso não significa concordar com suas ideias. Significa refletir, se colocar no lugar dx próximx, pois só assim poderemos balancear as posturas, podendo sugerir ações em consenso. Devemos ser psicólogxs e militantes, devemos ser ouvintes e oradorxs!

Se conseguirmos manter um debate saudável, sem agressões verbais, com uma pessoa que pensa diferente de nós, mais conseguiremos encontrar caminhos e argumentos para contrapor as ideias repressoras. É questão de lógica: ouça os argumentos inimigos ou leigos, aprenda a se defender dessas objeções. Para x libertárix convictx, não há objeção que destrua o ideal!

Portanto, não devemos nos exaltar em debates, pois isso tira nossa razão e nos torna pessoas que não sabem se portar diante de diálogos e diferenças.

Não precisamos nos enervar. Temos consciência de nossas ideias. Temos consciência de que muitxs não têm informações que nós temos e temos a consciência de que é normal que as pessoas se oponham, a princípio, ao nosso ideal. Mas com determinação, paciência, respeito e sabendo conversar sem nos precipitar, conseguiremos divulgar de forma satisfatória o ideal libertário.

O povo irá adquirir consciência aos poucos, assim como nós, que fomos aprendendo um pouco a cada dia dentro de nossa militância. E continuamos aprendendo, inclusive com as pessoas que nós mesmxs julgamos leigas.

CAPÍTULO XII – LIBERTAÇÃO HUMANA E ANIMAL *


Mulheres, homens, crianças, idosxs... Todos exploradxs! Todxs destratados perante esse sistema! Somos usados apenas como meio de satisfazer a vontade de grandes capitalistas, praticamente (ou literalmente) escravizadxs, sem possibilidade de escolhas, sem possibilidade de participação em importantes decisões.

O sistema nos prende, nos faz servi-lo, nos direciona ao caminho da dor, do sofrimento e da morte.

Durante toda a história nos deparamos com abusos de poucxs privilegiadxs sobre uma maioria de desfavorecidxs – o que caracteriza a ditadura. Ou seja, para quem pensa que a ditadura acabou, reveja seus conceitos. Ela ainda existe, só que camuflada. Por aqui, a ditadura se chama “democracia representativa”, uma tentativa estúpida de ludibriar o povo – e podemos citar o massacre europeu axs nativxs do continente americano na época da colonização, a escravidão de negrxs em séculos passados, a perseguição de judeus pela política nazista alemã, a violência aceita e dogmatizada do homem contra a mulher em diversos campos sociais – incluindo campos religiosos –, entre tantos outros casos ditatoriais e de índoles fascistas.

E como se não bastasse tanta exploração de um ser sobre outro, quando deveríamos caminhar todxs juntxs pelo bem geral, ainda assistimos o mundo e sua diversidade serem devastados! Vemos o meio ambiente sendo destruído para que esse sistema desigual seja expandido, para que mais seres sejam explorados, para que mais capitalistas ganhem fortunas enquanto milhares sofrem e às vezes nem têm o que comer! Hoje respiramos ar poluído, sofremos com o aquecimento global, sujamos e ignoramos a natureza, tudo por conta de um sistema que não nos permite viver em harmonia com os seres e com o mundo.

O punk luta contra tudo isso! O punk não se conforma que tantos seres sejam explorados para satisfazer o prazer de poucxs! O punk não se conforma com a destruição de um mundo que pode ser aproveitado e cuidado por todxs!
Eis que entro em um ponto ignorado ou desrespeitado por muitxs punks: a questão da libertação animal em prol dos ideais libertários.

Quando falamos em acabar com as desigualdades e com o preconceito, contra a exploração e contra a devastação do meio ambiente, torna-se necessário olhar com atenção para a causa animal.

Assim como os seres humanos, os animais também têm sentimentos, sentem medo, dor, afeição e tantas outras coisas que todos os seres sencientes (seres vivos que possuem a capacidade de ter sentimentos e sensações) possuem. Não é porque os animais não sabem falar ou não possuem polegar opositor que eles são inferiores. As pessoas certamente não comeriam um bebê só porque este não sabe falar ou usar suas capacidades motoras. Tentar justificar a exploração e o assassinato de algum ser vivo senciente é, sem dúvida, sádico.

O que os nazistas fizeram aos judeus, os humanos fazem aos animais! Não há distinção! Os humanos aprisionam animais, maltratam, exploram e os utilizam da forma que bem entenderem, sem levar em conta os sentimentos e dores que causam a estes animais. Tudo para desfrutar de algum prazer que não é indispensável ao ser humano. Especismo (a ideia de que uma espécie de vida é superior à outra) também é racismo!
Para que causar dor e exploração a alguém? Ainda mais seguindo na luta libertária! Isso é um tanto contraditório!

E o problema não para por aí! Se nós, libertárixs, nos importamos com a preservação do meio-ambiente e com a fome mundial, é ainda mais absurdo virar a cara para as causas de libertação animal! A criação de gado e de animais de consumo gastam muito mais recursos, espaço, água e energia do que o cultivo de alimentos de origem vegetal. A criação de gado devasta milhares de hectares de terra! Para quem quer botar a culpa dessa devastação no cultivo de soja, sinto informar, mas estima-se que cerca de 80% da soja produzida no mundo vira ração para a criação de gado, para que esse gado vire “comida”, sendo que essa soja destinada ao gado de consumo poderia alimentar populações famintas. No entanto, não seria interessante para o comércio expor esses dados. As pessoas comem carne, financiam a exploração e enriquecem grandes empresas capitalistas. Se essas empresas se enriquecem, qual o problema em fazer populações passarem fome? Bem. Eu vejo um grande problema nisso!

A questão da libertação animal vai muito além de uma dieta. A dieta vegetariana não é a luta em si. É apenas o começo para findar a exploração e a devastação ambiental!
Nós, libertárixs, não podemos nos habituar a quaisquer tipos de repressão, massacre e ditadura que sejam! A exploração animal foge do ideal libertário, querendo ou não. É necessário saber enxergar isso!

Ok. Se você é libertárix e não quer militar pela libertação animal, é uma escolha sua. Mas pense muito bem antes de criticar umx vegetarianx, um veganx ou umx protetorx dos animais, pois elxs podem estar fazendo muito mais pelo mundo do que você.


* Texto também utilizado pelo coletivo T@P@ @tivismo

CAPÍTULO XIII – A BUSCA POR CULTURA E O MUNDO DIVERSO

“Por um mundo onde caibam diversos mundos”. Belo pensamento! E define muito bem o ideal libertário e a essência do punk.

O punk tem sua cultura caracterizada pelo visual, pela produção de fanzines e por sua música anticomercial – música essa que qualquer um pode fazer por não exigir estudo instrumental e ser produzida de forma independente. Para conhecimento, foi assim que surgiu o hardcore –, fazendo do principal lema punk o Faça Você Mesmo (Do it Yourself).

No entanto, sabemos que são características que não prendem e nem devem prender o punk. O punk é livre para conhecer e apreciar outras culturas, músicas, ideias, pois assim podemos expandir o círculo social e a interação com outras pessoas ou até mesmo descobrir ligações entre outras culturas e o ideal libertário.

Já foi citado aqui que qualquer forma de preconceito é inconciliável com o punk. Também foi citada a importância de entender o ponto de vista de outros indivíduos, sempre focando o respeito e o ideal antifascista.

Portanto, aos que pensam que para ser punk é necessário ouvir hardcore, repudiar o som de um pandeiro, detestar a melodia de um violino, não escutar outras músicas havendo interesse, ir a gigs e não frequentar espetáculos artísticos diversos, enfim, a essas pessoas que pensam assim, afirmo que estão equivocadas!

O punk é multicultural! Além de sua contracultura peculiar, o punk tem a beleza de ser do povo para o povo e junto ao povo!

O importante para o punk é não se afastar de seus ideais libertários. Não importa os lugares que xs punks frequentam, as músicas que elxs escutam, as roupas que elxs vestem, contanto que nunca se afastem de sua essência e sempre lutem contra a exploração e contra o fascismo.

Aproveitemos, então, todas as culturas que nos são de direito! Todas as culturas que são do povo! Todas as culturas que nos fazem estar em um mundo onde caibam diversos mundos!

A interação com a população é essencial para a união e para o contato com novas e belas sensações.

CAPÍTULO XIV – O IDEAL LIBERTÁRIO NOS DIAS ATUAIS

“Mas vocês acham mesmo que vocês vão conseguir mudar alguma coisa?” é o que nos perguntam a toda hora. A minha resposta? “Já mudamos e estamos mudando!”.
As pessoas não entendem que x libertárix busca, sim, a mudança social, mas tem consciência de que isso é algo a ser muito bem trabalhado que leva anos, décadas, talvez séculos, e provavelmente não estaremos vivxs quando as grandes mudanças sociais chegarem.

No entanto, o que vale a pena dizer é que, mesmo que não acompanhemos essas mudanças de perto, durante nossas vidas e nossa militância como libertárixs conseguimos nos opor à exploração, fizemos nossas vozes serem escutadas, não nos resignamos, tentamos melhorar tudo aquilo que se fez possível, vivemos a vida da forma mais alternativa e independente que conseguimos!

Mesmo que não acompanhemos as grandes mudanças sociais de perto, nós temos a felicidade e a satisfação de ter promovido eventos culturais, passeatas em prol do povo, fanzines e materiais informativos para a população, adquirimos mais conhecimento através de leituras e da vivência, conhecemos e nos confraternizamos com outras pessoas, nos divertimos e fizemos grandes amizades... Isso tudo é uma grande e importante mudança! São mudanças pessoais que refletem no âmbito social sem sombra de dúvida!

Sim! Nós acreditamos num mundo livre das amarras capitalistas, onde todos viverão em cooperação e solidariedade, sem desigualdades sociais. Nós lutamos, sim, por esse mundo! Mas o mais importante de tudo é que nós, punks e libertárixs, não abaixamos a cabeça para todo esse caos que se apresenta.

Mesmo que, atualmente, não estejamos vivendo numa sociedade libertária, dentro de nós carregamos as sementes e a vivência que nos tornam ingovernáveis!
As mudanças começam dentro de cada umx.

CAPÍTULO XV – A CONSCIÊNCIA ALÉM DO PUNK




O mundo não precisa do punk. O punk é que precisa do mundo. O ser vivo precisa do mundo, de um mundo livre de crueldades! É muita pretensão achar que só porque somos punks temos mais atitude do que outras pessoas. É muita pretensão achar que só porque somos punks vamos mudar o mundo. Há milhões de pessoas fora do movimento punk que também contribuem com um mundo mais ameno, mais justo!

E vale lembrar que antes de sermos punks somos seres humanos. Temos nossas consciências que nos levaram a lutar por um ambiente melhor, e então nos encontramos no ideal punk.

Preciso dizer também que não existe o fato de “virar punk”. Quem “vira” punk pode “desvirar” a qualquer hora. Ninguém escolhe ser punk. Ninguém acorda e diz “hoje quero ser punk”. Nós nos descobrimos punks, nós nos encontramos dentro do ideal libertário e dentro da contracultura, nós nos vimos dentro desse contexto. Ser punk é uma condição, é algo que está dentro de nossos corações!

Não temos a pretensão de buscar um mundo punk, claro que não! Assim como nós nos encontramos na contracultura punk, outros indivíduos se encontram em outras culturas. E eis a graça da diversidade! O importante é manter essas diferenças culturais em harmonia, sem desrespeito e sem apoiar o sistema opressor!
Existe um mundo cheio de surpresas e conhecimento dentro do punk, mas fora dele também há outros mundos tão cheios de beleza quanto a própria contracultura que defendemos!

Ser punk é indescritível, estar vivo é ainda mais! Aproveitemos nossas vidas, buscando sempre o bem-estar e a ruptura com as desigualdades!

O PUNK ESTÁ VIVO e enquanto houver injustiças a combater, culturas para se conhecer, lazeres para aproveitar, então o punk continuará sua estrada!

Se nós mesmxs não matarmos o punk, então ninguém mais matará! ÊRA PUNK! RESISTÊNCIA LIBERTÁRIA!

Paz, Saúde e Anarquia!

Esse documento foi escrito por Mao Punk, em julho de 2010.
Contato: colunaslibertarias@yahoo.com.br